sexta-feira, 25 de julho de 2014

«Lutam com as palavras os escritores, os Drummonds, aceitando-lhes as definições correntes ou, no seu direito de artistas, modificando-lhes o sentido, ou criando novos, ou novas palavras; e lutam, igualmente, os dicionaristas, redefinindo-as, acrescentando-lhes significados ou introduzindo-as no léxico, após enfrentar a tarefa, tantas vezes penosa, de captar-lhes a essência, desentranhar-lhes o sentido, infundir a alma num corpo. Uns e outros se empenham na luta - e sempre com a esperança de que não seja vã. Em nossos casos particulares - o do Poeta e o deste aprendiz de lexicografia - há uma diferença (deixem passar a confissão): a luta de Drummond principia “mal rompe a manhã”, a do aprendiz, ordinariamente, vai até de manhã.»

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Aurélio Século XXI

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Partes de um verbete - a entrada

Você que costuma consultar dicionários para estudo, por motivos profissionais ou simplesmente por prazer, já parou para pensar como é elaborado um verbete, quais são os elementos que o compõe e o que pode ser descoberto em cada setor do verbete?
Hoje é o dia da parte inicial, a entrada.

A entrada, cabeça de verbete ou unidade léxica é a palavra, locução, frase ou elemento de composição que abre o verbete, sendo objeto de definição e de informação. Geralmente vem em negrito e em tipo redondo ou tipo itálico.

Na figura abaixo, aparece marcada em vermelho.



A entrada corresponde a uma unidade lexical e pode ser uma palavra simples, uma palavra composta por hífen, um elemento mórfico da língua, uma locução, uma redução (do tipo símbolo, sigla, abreviatura etc.); pode, ainda, ser múltipla e, em casos mais raros, tratar-se de  uma pequena frase. Veja os exemplos que se seguem:
Geralmente a entrada é grafada em minúsculas, podendo ser em maiúsculas no caso de siglas, acrônimos, símbolos químicos e marcas comerciais, por exemplo.


A entrada é apresentada na forma lematizada, ou seja, se é um substantivo ou adjetivo, no singular e no masculino, se é um verbo, no infinitivo.

Os homógrafos geralmente apresentam entradas separadas.

De modo geral, as formas femininas são registradas como entradas se apresentam acepções ou locuções que não estão presentes na forma masculina, como gata, que além de ser a fêmea do gato, pode ser uma máquina semelhante à catapulta, por exemplo.

Ao se digitar a palavra na forma feminina, alguns dicionários eletrônicos ou on-line direcionam o consulente para a forma lematizada alfabeticamente mais próxima daquela digitada.

Você é curioso? Descubra por que gata, macaca, canária, tia, filha, prima, médica, mestra e bailarina são entradas independentes das suas formas masculinas, pesquisando no Aulete ou no Houaiss.

Fonte: Dicionários Houaiss e Aulete.

terça-feira, 4 de março de 2014

Afinal, o que faz um lexicógrafo?

Acho que um bom começo para entender o que faz um lexicógrafo é, justamente, procurar a definição da palavra no dicionário:
No Aulete:

(le.xi..gra.fo) 
sm.
1. Lex. Ling. Aquele que pratica a lexicografia; DICIONARISTA
[F.: Do gr. leksikográphos. Hom./Par.: lexicografo (fl. de lexicografar).]


Confesso que não acho muito esclarecedor o que possa significar “praticar a lexicografia”, quem sabe olhamos no Houaiss?
A mesma coisa... Isso acontece porque, muitas vezes, as definições de um dicionário são copiadas de outros. Pois é. O corpus de um dicionário pode incluir outros dicionários já publicados.
Quando a definição não é muito esclarecedora, o jeito é procurar na palavra base, a palavra da qual aquela que você procura foi retirada: no nosso caso, é “lexicografia”:

(le.xi.co.gra.fi.a) 
sf.
1. Lex. Ling. A técnica de elaboração de dicionários.
2. O trabalho de compilação de vocabulários, definições etc.
3. A análise e conceituação teórica desse trabalho.
4. Estudo científico dos critérios envolvidos no trabalho de elaboração de dicionários.
[F.: léxic(o) + -grafia.]

Bem, agora já temos mais informações: um lexicógrafo, então, elabora e compila definições para palavras e termos, analisa e conceitualiza o trabalho de lexicografia e estuda os critérios envolvidos na elaboração de dicionários.
Mas… um lexicógrafo inventa palavras?
Pode acontecer, como nos conta Hélio Schwartsman neste delicioso artigo da Folha de São Paulo, já meio antigo, mas ainda muito atual.
Leiam o que ele diz sobre lexicógrafos que inventam palavras:

Em 1599, um holandês conhecido apenas como A.M. resolveu traduzir do latim para o inglês um importante trabalho médico de Oswald Gabelknouer, intitulado "O Livro da Física". Ocorre que o prestativo A.M. já havia há muito abandonado a Inglaterra e, por isso, esquecera quase todo o seu inglês. Isso não o intimidou e ele simplesmente colocou terminações inglesas nas palavras latinas. Alguns de seus amigos na Inglaterra o advertiram de que nenhum inglês teria a menor idéia do que estaria lendo. Novamente, o bravo A.M. não se intimidou e fez uma lista de seus barbarismos, traduziu-os por um sinônimo inglês simples. Alguns exemplos: "Frigifye, reade (leia-se) coole (resfriar); Calefye, reade heat (esquentar); Circumligate, reade binde (ligar)". Robert Cawdrey, autor de um importante dicionário inglês, usou a errata de A.M. como fonte e assim esses barbarismos acabaram entrando no léxico de Albion.
Um outro inglês, Henry Coockerram, foi ainda mais longe. Despudoramente inventou algumas palavras de que aparentemente gostava mas que nunca lera em texto nenhum. Incluiu em seu dicionário termos como: "adpugne", "adstupiate", "bulbitate", "catillate", "fraxate", "nixious", que chegaram a ter alguma existência na língua. Como o sr. Noah Webster teve a excelente idéia de retirar essas coisas de sua obra, não posso lhe contar o que significam.

Nos dias de hoje, porém, com o poder de pesquisa que a internet proporciona, é impensável que um lexicógrafo possa inventar palavras ou termos. Um lexicógrafo é um observador da língua, geral ou setorial, quase como um astrônomo que observa as estrelas no firmamento e registra a existência e a localização delas, ou ainda a primeira vez que uma determinada estrela foi observada, por exemplo.
Assim acontece com as palavras ou termos: o lexicógrafo nada mais é do que um observador, um registrador e um explicador de palavras, jamais um inventor.
Neste trabalho, a autora lista uma série de comportamentos dos dicionaristas que resultam em ações no seu fazer lexicográfico, comportamentos estes que são representados, na maioria das vezes, pelas palavras observar e registrar.
O bom lexicógrafo, portanto, jamais cairá na tentação de criar termos ou palavras, por mais que essa “brincadeira” possa lhe parecer tentadora.

Para concluir, uma entrevista com Peter Sokolowski, lexicógrafo que trabalha na Merriam-Webster Company, que conta um pouco sobre o seu trabalho (em inglês).







quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O homem e a mulher são iguais? Não no dicionário.

Neste post do El País, o DRAE Diccionario de la Real Academia Española, é criticado pelo sexismo apresentado nas definições e exemplos em alguns de seus verbetes. Palavras como huérfano, hombre, mujer, madre, padre, edén são listadas como apresentando características sexistas, especialmente na definição. 

É importante, porém, não confundir o registro de palavras de uma língua sexista reproduzido em um dicionário com a apresentação sexista de verbetes no dicionário.

Exemplos de sexismo na língua portuguesa não faltam, desde os mais óbvios e concretos, como cão/cadela, touro/vaca, a outros menos concretos e menos conspícuos como aventureiro/aventureira, tiozinho/tiazinha, nos quais o substantivo na forma feminina remete sempre a um significado sexual negativo.

Comparei alguns dos verbetes citados como sendo sexistas no DRAE com o dicionário AULETE  tentando observar um possível sexismo, e hoje mostro a vocês dois verbetes bem comuns e importantes: homem e mulher.

Os resultados:






Comparando a primeira acepção de homem e mulher, já notamos imediatamente que há especificação do sexo no verbete mulher e não há a mesma especificação no de homem.

A acepção 2 de mulher parece ser uma tentativa de amenizar a acepção 2 de homem, especialmente pelo exemplo. Acho desnecessário ressaltar a mulher como parcela da humanidade, já que, nesse caso, o sexismo é da língua portuguesa, como ocorre em muitos idiomas.

Vamos comparar agora a acepção 3 dos dois verbetes, quase equilibrada, não fosse a inclusão do sinônimo “varão” para homem e a ausência de sinônimos para mulher.

Já a quarta acepção do verbete mulher é claramente sexista: a acepção com o significado de passagem à fase adulta pela perda da virgindade (que poderia ter sido colocada em termos de “que teve a primeira relação sexual”), no de homem não há nenhuma indicação correspondente de chegada à fase adulta pela realização das mesmas condições. O exemplo também é triste: “ele disse que queria me fazer mulher” parece conceder ao homem todo o poder de decisão sobre o corpo da mulher, como se ela não pudesse decidir, por si só, “tornar-se mulher”.

A acepção 5 do verbete mulher parece inútil, já que não assinala o que provavelmente teve intenção: de que ao ter a primeira menstruação, a menina se torna mulher, isto é, capaz de procriar. A indicação de entrada na puberdade é muito vaga, e o que se costuma pensar é que ao entrar na puberdade, a menina se torna adolescente, não mulher. Construída como está, essa acepção entra em conflito com a acepção número 4: afinal, uma pessoa do sexo feminino se torna mulher ao entrar na puberdade ou ao “perder a virgindade”?
Bem, mas não deveria, então, haver alguma menção no verbete homem de quando o menino se torna fisicamente um homem?

Comparando as acepções 7 de mulher e 5 de homem, vemos que as características do “comportamento, juízo e qualidades próprios de mulher madura” (quais são, você sabe? Por que o dicionário não menciona?) se repetem quase iguais na acepção 5 de homem, mas neste último com a inclusão do substantivo “pensar”. Por que a distinção?

A acepção 8 de mulher e a acepção 6 de homem são quase idênticas, com exceção da introdução da característica de vigor sexual do homem. Eu me pergunto se é necessária essa inclusão, já que ela não consta no verbete mulher. Mulher não pode ter vigor sexual?

A acepção 7 de homem parece um pouco a repetição da acepção 6, mas já que está lá, por que não há também no verbete mulher?

Passo pelas acepções 8, 9, 10 e 11 de homem e 10, 11 e 12 de mulher e me detenho na acepção 12 de homem e 9 de mulher: o homem é esposo ou amante e a mulher é a esposa ou companheira: sim, porque o uso consagra mulher como cônjuge, não como amante, por isso a divergência na acepção. Mas por que é preciso dizer que a mulher é a esposa ou companheira de um homem, mas o homem é só o esposo ou o amante (de quem)?

Convido vocês, leitor@s, a refletirem sobre esses dois verbetes do dicionário e sobre as implicações que a elaboração heterogênea dos verbetes pode acarretar.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Os erros nos dicionários

Para quem acha que os dicionários nunca erram, estão sempre certos e podem ser usados como provas em julgamentos, vejam que interessante este blog que lista os erros do Houaiss.
Apesar de serem obras acuradas, são obras humanas, e portanto, passíveis de erro.

Uma amostrinha: 
Mal comportamento e mau comportamento
No verbete comportamento, o exemplo da acepção 4 está com erro. Está escrito "mal" em vez de "mau", sugerindo "mal comportamento. O correto é mau comportamento.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A vida das palavras

 Excelente artigo de

"Intento explicarle que, por ejemplo, un diccionario es mucho más que un túmulo de palabras o nombres. Y lo es porque, más allá de la mera y muy visible lista de términos definidos o explicados, hay otro mundo, existe un universo de creencias, de cosmovisiones, de ideales y de muchos otros aspectos que el lector poco acucioso puede no percibir, pero que están ahí, frente a sus ojos."


 http://www.el-nacional.com/papel_literario/vida-palabras-espanol-venezolano-diccionario_0_146985513.html

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Bula (II)

Caro leitor, vamos continuar neste post a ver qual é a relação de uma bula com um dicionário.

Se você for um pouco mais antigo, como esta que vos fala, vai lembrar que antes a maioria das bulas era feita em um papel bem fininho, as letras eram miudinhas e todo o espaço era aproveitado. Isso acontecia para que coubesse o máximo de informação possível sobre o medicamento naquela bula, naquele espaço de papel.
Com os dicionários ainda acontece a mesma coisa, se forem dicionários impressos. O espaço precisa ser bem aproveitado para que comporte uma quantidade maior de palavras sem deixar o dicionário muito volumoso e pesado, permitindo não só a inserção de uma quantidade expressiva de palavras e termos como também alguma portabilidade do dicionário ao consulente.
Um dos modos de alcançar este objetivo é reduzindo o espaço destinado às margens, usar uma fonte reduzida e um papel de gramatura fina e leve, que permita a inserção de muitas folhas e não deixe o dicionário tão pesado.
Certo, mas eu falei das bulas mais antigas. Isso porque as bulas, antes, eram mais direcionadas aos médicos e não tanto ao público que iria usar o medicamento. O importante era que o médico tivesse acesso a muitas informações sobre o remédio e ele, então, explicaria ao paciente como usar a medicação.
Mas as bulas mudaram, porque o público-alvo mudou. Os médicos começaram a ter acesso às informações sobre o medicamento por uma bula especial para eles, ou por outros meios e as bulas passaram a ser direcionadas para o público consumidor dos medicamentos. Com a mudança de público-alvo, começou-se a usar uma fonte de tamanho maior, o que acarretou uma gramatura de papel mais grossa e um uso do espaço no papel mais conservador.
Outra coisa que, obviamente, teve que mudar, foi a linguagem usada na bula. Como o público-alvo passou de médicos e profissionais da saúde ao público em geral, foi necessário que uma linguagem clara e acessível fosse implantada. O consulente de uma bula precisa entender exatamente como tomar o medicamento, quais os efeitos colaterais e as reações adversas para poder usar plenamente o remédio.
Com os dicionários aconteceu uma coisa parecida, mas a questão fundamental, que permeia a mudança tanto nas bulas quanto nos dicionários é a determinação do público-alvo. É esta determinação que orienta ou deveria orientar os profissionais que produzem dicionários em cada passo, em cada decisão a respeito de como compor a apresentação de um dicionário.
No próximo post vamos falar sobre as questões que orientam a elaboração de um dicionário, isto é, que perguntas o elaborador do dicionário deve fazer a si próprio na elaboração de um.

Referências:

Welker, Herbert Andreas. Dicionários – Uma pequena introdução à Lexicografia. Brasília. Editora Thesaurus, 2004.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Da confiabilidade dos dicionários


"O significado da palavra não está no dicionário, mas no texto que está sendo lido. O dicionário apenas dá pistas; quem dá o significado da palavra é o texto.”