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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

E a celeuma continua... Presidenta ou presidente?


O debate voltou à tona por causa da declaração de uma presidentX que quer ser chamada de presidente, porque diz que respeita a língua portuguesa, deixando aos bons entendedores a insinuação de que presidenta seria um desrespeito à língua.

Antes de tudo, mais do que um debate linguístico, esse é um debate político, uma tomada de posição.

Para comprovar a legitimidade e a antiguidade da palavra presidenta, duas lexicógrafas da equipe do dicionário Aurélio, Marina Baird Ferreira e Cássia Menezes da Silva, fizeram uma pesquisa em dicionários mais antigos para comprovar o registro e o uso da palavra presidenta. E é mais antigo do que você pensa.

Reproduzo o quadro abaixo, retirado do site do Ig.

E aí se demonstra mais uma função do dicionário: a de documentação e fonte de pesquisa histórica. Além das rotineiras consultas sobre ortografia e significado das palavras, os dicionários, especialmente os de língua geral, podem ser usados como atestação de usos e registros.

A questão está resolvida, usar "presidenta" é perfeitamente legítimo.
Isso não significa que você é obrigado a usar a palavra. Assim como com outras palavras, a escolha é livre. Dá pra usar "presidente" em referência a uma mulher, assim como você pode usar "gigante" e "comediante", também se referindo a uma mulher.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O homem e a mulher são iguais? Não no dicionário.

Neste post do El País, o DRAE Diccionario de la Real Academia Española, é criticado pelo sexismo apresentado nas definições e exemplos em alguns de seus verbetes. Palavras como huérfano, hombre, mujer, madre, padre, edén são listadas como apresentando características sexistas, especialmente na definição. 

É importante, porém, não confundir o registro de palavras de uma língua sexista reproduzido em um dicionário com a apresentação sexista de verbetes no dicionário.

Exemplos de sexismo na língua portuguesa não faltam, desde os mais óbvios e concretos, como cão/cadela, touro/vaca, a outros menos concretos e menos conspícuos como aventureiro/aventureira, tiozinho/tiazinha, nos quais o substantivo na forma feminina remete sempre a um significado sexual negativo.

Comparei alguns dos verbetes citados como sendo sexistas no DRAE com o dicionário AULETE  tentando observar um possível sexismo, e hoje mostro a vocês dois verbetes bem comuns e importantes: homem e mulher.

Os resultados:






Comparando a primeira acepção de homem e mulher, já notamos imediatamente que há especificação do sexo no verbete mulher e não há a mesma especificação no de homem.

A acepção 2 de mulher parece ser uma tentativa de amenizar a acepção 2 de homem, especialmente pelo exemplo. Acho desnecessário ressaltar a mulher como parcela da humanidade, já que, nesse caso, o sexismo é da língua portuguesa, como ocorre em muitos idiomas.

Vamos comparar agora a acepção 3 dos dois verbetes, quase equilibrada, não fosse a inclusão do sinônimo “varão” para homem e a ausência de sinônimos para mulher.

Já a quarta acepção do verbete mulher é claramente sexista: a acepção com o significado de passagem à fase adulta pela perda da virgindade (que poderia ter sido colocada em termos de “que teve a primeira relação sexual”), no de homem não há nenhuma indicação correspondente de chegada à fase adulta pela realização das mesmas condições. O exemplo também é triste: “ele disse que queria me fazer mulher” parece conceder ao homem todo o poder de decisão sobre o corpo da mulher, como se ela não pudesse decidir, por si só, “tornar-se mulher”.

A acepção 5 do verbete mulher parece inútil, já que não assinala o que provavelmente teve intenção: de que ao ter a primeira menstruação, a menina se torna mulher, isto é, capaz de procriar. A indicação de entrada na puberdade é muito vaga, e o que se costuma pensar é que ao entrar na puberdade, a menina se torna adolescente, não mulher. Construída como está, essa acepção entra em conflito com a acepção número 4: afinal, uma pessoa do sexo feminino se torna mulher ao entrar na puberdade ou ao “perder a virgindade”?
Bem, mas não deveria, então, haver alguma menção no verbete homem de quando o menino se torna fisicamente um homem?

Comparando as acepções 7 de mulher e 5 de homem, vemos que as características do “comportamento, juízo e qualidades próprios de mulher madura” (quais são, você sabe? Por que o dicionário não menciona?) se repetem quase iguais na acepção 5 de homem, mas neste último com a inclusão do substantivo “pensar”. Por que a distinção?

A acepção 8 de mulher e a acepção 6 de homem são quase idênticas, com exceção da introdução da característica de vigor sexual do homem. Eu me pergunto se é necessária essa inclusão, já que ela não consta no verbete mulher. Mulher não pode ter vigor sexual?

A acepção 7 de homem parece um pouco a repetição da acepção 6, mas já que está lá, por que não há também no verbete mulher?

Passo pelas acepções 8, 9, 10 e 11 de homem e 10, 11 e 12 de mulher e me detenho na acepção 12 de homem e 9 de mulher: o homem é esposo ou amante e a mulher é a esposa ou companheira: sim, porque o uso consagra mulher como cônjuge, não como amante, por isso a divergência na acepção. Mas por que é preciso dizer que a mulher é a esposa ou companheira de um homem, mas o homem é só o esposo ou o amante (de quem)?

Convido vocês, leitor@s, a refletirem sobre esses dois verbetes do dicionário e sobre as implicações que a elaboração heterogênea dos verbetes pode acarretar.